Comida e felicidade –  Implicações para a obesidade

 Artigo de especialista –

 Profa. Dra. Ana Lydia Sawaya –

 Unifesp/ CREN –

Comida e felicidade. A filosofia grega nos diz que a felicidade se alcança pela virtude e que a pessoa boa é feliz e quem faz o mal é infeliz. A tradição cristã afirma algo semelhante, ao dizer que a consciência tranquila leva à felicidade e que o estado permanente de quem é feliz é a paz. “A paz de Cristo esteja sempre com todos vocês” dizia sempre São Paulo.

Nas Bem-Aventuranças, Jesus revela que a condição para ser feliz não é ter uma vida fácil e tranquila, mas ao contrário, a experiência de felicidade é ainda mais evidente em meio às tribulações que sofrem aqueles que são bons, puros de coração, honestos, justos, e por isso choram, são rejeitados, insultados, odiados (pelos que não são felizes…). Em linhas muito breves, este é de acordo com Sócrates, Platão, Aristóteles e toda a tradição bíblica o caminho para ser feliz.

Comida feliz?

Recentemente, porém, a indústria e comércio de alimentos e bebidas, seguindo a filosofia que embasa a economia moderna – “o homem é objeto de consumo” – e a mentalidade hedonista consequente, introduziu no mercado, através de propaganda maciça, alimentos e bebidas altamente palatáveis ou “saborosos”, afirmando que eles nos trarão felicidade. Eis alguns exemplos clamorosos, facilmente reconhecíveis: “Abra a felicidade! ”, “Amo muito tudo isso!”, “Um sabor de quero mais” ou ainda “Um sabor inesquecível”, “Exageradamente gostoso” (de fato é viciante…); ainda um outro que acabou sendo proibido em alguns países: “Deprimido? Coma chocolate!”

Fim do Consumo Excessivo

Bem ilustrativa é a propaganda de um restaurante citada pelo autor americano David Kessler em 2009 no seu best-seller “Fim do Consumo Excessivo”:

Não se trata de agarrar e dar uma mordida, mas da mordida agarrar você. Porque quando Friday’s [o nome do restaurante] prende seu apetite, ele não o solta mais. Nós vamos carregar no aroma até suas papilas linguais explodirem como fogos de artifício. (…) Vamos sonhar novos sabores e pratos que nunca foram criados antes. Três pratos em uma refeição. [1] Os antigos chamariam isso de o caminho para a gula…

Obesidade no mundo

Como se podia esperar, cerca de um terço da população mundial tem excesso de peso e já sabemos que essas pessoas ficarão muito mais doentes, com diabetes e doenças cardiovasculares, e morrerão muito mais cedo que as magras; além de causar um gasto enorme para o sistema de saúde. A Organização Mundial da Saúde vem afirmando em suas publicações que esse quadro é devido a todo o processo industrial e comercial de estímulo ao prazer e ao vício alimentar e à satisfação momentânea, gerado pela propaganda. E qual é o fator que mais aumenta as vendas? Ligar o produto, ilusoriamente, à felicidade.

Comida rica em açúcar, gordura e sal

A ciência revela que o ingrediente que mais causa prazer é o açúcar ou o sabor doce, seguido pela gordura e o sal. A indústria sabe bem disso e, por isso, bebidas açucaradas, bolachas recheadas, bolos, chocolates vendem tanto. Por isso também procede a afirmação segundo a qual “tudo o que é gostoso é proibido”. O McDonald’s tentou mudar e começou a vender salada, mas suas vendas caíram muito (esquecendo que o frequentador assíduo das suas lojas muitas vezes já é um viciado) e o novo CEO voltou ao velho hambúrguer com refrigerante e batata frita cheia de açúcar (mesmo se o consumidor não sabe), gordura e sal e as vendas voltaram a crescer no último ano.

Políticas públicas

Que fazer? Do ponto de vista da saúde pública cresce a evidência de que o caminho é aquele da regulamentação e proibição como aconteceu com o cigarro, mas o lobby das indústrias (em particular no Brasil) e o comércio de alimentos em restaurantes torna esse caminho ainda mais espinhoso. No caso do cigarro tratava-se de um produto supérfluo e único, enquanto que a confusão entre comidas e bebidas palatáveis e a “felicidade” determina todo um ambiente obesogênico, envolvendo muito produtos e diversos fatores condicionantes.

É verdade que, do ponto de vista fisiológico, o açúcar, a gordura e o sal estimulam os centros cerebrais do prazer, acalmam, causam sonolência e saciedade, diminuem a ansiedade, mas explorar comercialmente estas propriedades coisifica o ser humano, tira-lhe a liberdade e a capacidade de decidir como acontece exatamente com tudo aquilo que gera vício.

Educação alimentar

E as escolas, as famílias e cada um de nós o que podem fazer? Primeiro, combater por via da educação a redução do ser humano a “um objeto de consumo”, e cuidar especialmente quando este vive em situação de fragilidade e solidão; lembrar-se também de que uma verdadeira educação alimentar nunca pode ser teórica, mas exige uma educação prática que acompanhe as pessoas a mudar hábitos no cotidiano, como por exemplo, organizar o tempo para cozinhar em casa.

Nesse sentido, o Guia Alimentar para a População Brasileira recentemente publicado pelo Ministério da Saúde dá muitas dicas, entre elas:

Três orientações sobre o ato de comer e a comensalidade:

  1. Comer com regularidade e com atenção. Procure fazer suas refeições diárias em horários semelhantes. Evite “beliscar” nos intervalos entre as refeições. Coma sempre devagar e desfrute o que está comendo, sem se envolver em outra atividade.

  2. Comer em ambientes apropriados. Procure comer sempre em locais limpos, confortáveis e tranquilos e onde não haja estímulos para o consumo de quantidades ilimitadas de alimentos.

  3. Comer em companhia. Sempre que possível, prefira comer em companhia, com familiares, amigos ou colegas de trabalho ou escola. Procure compartilhar também as atividades domésticas que antecedem ou sucedem o consumo das refeições. [2]

Preparar refeições saudáveis em família, isto sim traz felicidade!

Notas:

[1] KESSLER, David A. The End of Overeating: taking control of the insatiable american appetite. Emmaus (PE): Rodale Books, 2010.

[2] BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Guia alimentar para a população brasileira. Brasília: Ministério da Saúde, 2014, p. 101.

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